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6 de dezembro de 2009
Pego a revisa Época da semana e vejo a capa: 100 brasileiros mais influentes de 2009
Senti como um tapa na cara. Vi que eu não sei absolutamente nada sobre “brasileiros influentes”, e às vezes acho que cada vez sei menos sobre o nosso país. Beira o surreal alguns nomes que estão ali e, o pior, a maneira como são descritos.

Existem nomes ali que não são influentes, mas que deveríam ser, como a dupla de designers osgemeos. Conheço alguns de seus trabalhos e acho fantásticos. Para mim eles são influentes, mas para a maioria dos brasileiros, não. Ontem, folheando a Veja, vi o anúncio de uma agência de propaganda que não tinha layout, não tinha um casamento de cores legal. Parecia mais aquele powerpoint que o vizinho aposentado te mandou falando sobre um assunto nada interessante. Conversando com a Fê chegamos à conclusão de que é aquilo o que vende no mundo da propaganda no Brasil: nome. O anúncio consiste em um texto mostrando quem são os sócios da empresa. Vejo muitas propagandas que são simplesmente ridículas, como a do BuscaPé, onde um anormal vai nas lojas tirar onda dos lojistas com aquela balançadinha de braços completamente ridícula (eu não consegui nem esboçar um sorriso, de tão ridículo que é o negócio), ou a da Fiat com a horrível Ob La Di Ob La Da, que ganhou o título de “pior música de todos os tempos” em uma votação online.
Voltando à matéria da revista, outros nomes bons são Marcelo Adnet, que tem um tipo de humor único, Deborah Colker e Lázaro Ramos. Não faltaram alguns clichês, que nada contribuem, como Roberto Carlos (o cantor), nosso presidente Lula, a ministra (e futura presidente do Brasil, pode anotar aí) Dilma Rouseff, Juliana Paes, Glória Perez, Paulo Coelho e Gisele Bunchen.
Agora o que gerou a indignação, e uma certa tristeza, foi ver nomes como Renan Calheiros e José Sarney. As páginas que precedem as declarações sobre estes dois ilustres mau exemplos da política brasileira possuem nada menos que sete anúncios consecutivos, sendo que o primeiro é do Ceará.
José Sarney é descrito da seguinte forma: “Moderação nos atos e disposição para o diálogo são qualidades marcantes em toda a trajetória política do presidente do senado. Usando estes instrumentos, ele construiu muitos consensos para solucionar crises e superar desafios durante toda a sua vida pública. Não foram poucos os problemas enfrentados, principalmente durante os cinco anos em que exerceu a Presidência da República, de 1985 a 1990. Diversas vezes deputado federal, senador e governador, ocupa pela terceira vez a presidência do Senado. O reconhecimento dos pares e o respeito que detém o fazem um dos personagens mais influentes da política brasileira”. Quem escreveu o texto referente ao atual presidente do senado foi Michel Temer, que atualmente exerce papel de presidente da Câmara dos Deputados.
O texto atrubuído a Renan Calheiros diz o seguinte: “Desde moço surgiu como uma grande vocação política. Iniciou sua trajetória como líder estudantil e, depois, sempre ocupou um lugar importante na vida de seu Estado, Alagoas. Logo se projetou na política nacional, em que é homem público presente ao debate dos grandes temas nacionais, em que se aprimorou pelo talento e coragem. Renan tem sido um dos pilares à governabilidade nesse período de tantas transformações da Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva. Sua ação parlamentar se baseia na capacidade de liderar, articular e comandar causas, como o Estatudo do Desarmamento, uma reivindicação da sociedade que, com sua obstinação, se concretizou e salvou muitos milhares de vidas.” O texto é assinado por José Sarney.
Segundo nota, os nomes foram escolhidos pela redação e por milhares de leitores, e diz que Sarney e Renan, entre todos os outros nomes, “são aqueles que se destacam pelo poder, pelo talento, pelas realizações ou pelo exemplo moral”. Bom, vamos lá:
1. Qual o exemplo moral que Renan e Sarney têm perante a sociedade brasileira?
2. Quais foram suas realizações? (não vale aqui empreendimentos pessoais realizados com dinheiro público)
3. Qual o talento dos dois? (além de, lógico, o de assaltar descaradamente os cofres públicos e saírem impunes)
4. Qual o poder dos dois? Bom… Isso eles têm de sobra, pois ninguém pode com eles.
Sou obrigado a concordar com a revista. São, sem dúvida alguma, pessoas influentes, senão não estaríam no poder há tanto tempo. São pessoas que usam de artimanhas rasteiras para construir um império pessoal com o dinheiro recolhido em nome da saúde, educação, transporte e segurança. São nomes que foram eleitos e re-eleitos diversas vezes para os mais diferentes cargos públicos. Eles, definitivamente, são influntes e possuem um poder de persuasão talvez inigualável, pois fazendo o que eles fazem eu não conseguiria convencer nem minha própria mãe a votar em mim.
Estes nomes estão aí para ficar. Na saída deles ficarão seus protegidos. Assim como um dos outros nomes da lista é o de Sérgio Cabral Filho, cujo texto é de seu pai, Sérgio Cabral, este descrito como “jornalista, escritor e compositor”.
Dilma Rouseff é, segundo o ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, “uma mulher persistente e de fibra, que reúne competência técnica, coragem pessoal, compromisso com o país, com a ética e com a democracia. Assim é a ministra Dilma Rouseff, com quem convivi na luta contra a ditadura e com que, hoje, mantenho uma atuação convergente, tanto no campo das ideias quanto na ação política. Nossa amizade nasceu na juventude, compartilhando o sonho de um país livre e justo e os riscos da luta contra a ditadura militar. Sinto-me honrado por ser seu amigo e companheiro de militância – e acho que o país pode se orgulhar de ter alguém como ela na vida pública nacional.”
Belíssimas palavras para alguém que já está utilizando a máquina pública a seu favor, pois não está em campanha oficialmente, mas já faz campanha há algum tempo nas viagens oficiais. A vitória dela é praticamente certa. Vejamos o papel da mídia neste caso:
Dilma, até pouco tempo atrás, sempre aparecia nos jornais em fotos onde aparentava estar xingando alguém, completamente indignada, apontando o dedo, em ângulos completamente toscos (propositalmente, lógico). Hoje todas as imagens são de uma Dilma feliz, sempre sorridente, às vezes concentrada, de cabelo novo e rosto idem (passou por uma plástica recentemente). A mídia já começou a fazer seu papel de apoio à candidata, não sei se é alguma imposição do governo atual, que sempre criticou a falta de liberdade em tempos antigos e sua equipe atual condena, ou se é para evitar futuros problemas, como o do Estadão.

A Época, mais uma vez, fez lembrar onde vivemos e quem somos. Um país que faz piada com todo mundo, mas não gosta quando fazem piada dele. Esqueceram que a frase na hora da comemoração foi “Yes we créu”? E que créu significa exatamente transar? Ou que um dos símbolos do país é o carnaval, onde só tem mulher seminua? Também é um país onde um processo jurídico depende da circunstância:
a) Se um negro fizer piada de outro negro, tudo bem. Se um negro fizer piada de um branco, tudo bem, Se um branco fizer piada de um negro, é racismo e merece cadeia.
b) Se alguém roubar, dá cadeia. Mas se esta pessoa for um político influente, é citado por uma das revistas mais respeitadas do país como “exemplo a ser seguido”.
Termino este texto com a seguinte frase: “O país só vai mudar quando nós mudarmos, quando vermos que nós somos o problema. Enquanto o problema for sempre do outro, não adianta reclamar. E os filhos de Sarney e Renan estarão sempre lá para nos lembrar disso”.
PS: Enquanto eu digitava este texto, a Mila, cachorrinha do avô da Fê, vinha toda hora aqui e apertava enter. CACHORRO NÃO DÁ ENTER!
Escrito às 11:04 | Link |