Lucifer’s Angel
4 de maio de 2006

Escutando: U2 – Achtung Baby

Ontem eu resolvi me dar ao luxo de dormir 5 minutos a mais, a cama estava indescritívelmente aconchegante e me provocava de maneira sensual a continuar ao seu lado. Mais 5 minutos… E você estará livre para ir onde quiser. E eu fiquei mais os 5 minutos… E acabei perdendo a van que vai pro serviço. Conclusão? Passar no posto, colocar 50 dinheiros de combustível e encontrar a BR116 rumo ao infinito. Cheguei uma hora e trinta minutos atrasado, será que alguém notou a minha falta? Eu é que não vou me preocupar. No meu outro emprego eu me preocupava em ser perfeito e o quê aconteceu? Sim, caí feito um pato. Eu aprendi que não interessa se você é o melhor ou o pior funcionário, e sim se os chefes estão de bom humor ou não.

Bom… Voltando… Como eu cheguei mais tarde, fiquei até mais tarde por dois motivos: compensar o atraso e trabalhar no horário que os telefones não tocam. É o melhor horário pra se trabalhar, principalmente num setor feito o meu, que qualquer coisa pode desviar a atenção e tu acaba fazendo algo completamente diferente do que estava fazendo. Isso acontece seguido comigo. Hoje eu estava vendo a compatibilidade do Xen com o Windows 2003 e acabei colocando o LDAP a funcionar. Nada a ver uma coisa com a outra, e é isso o que mais atrapalha. São muitas coisas a resolver, coisas relativamente fáceis, mas o telefone é impiedoso e não se cala.

Então nesse tempo a mais, e sozinho, tentei fazer o Xen funcionar apenas pra conhecer, atualizei uma porrada de coisas no meu Fedora Core 4, coloquei pra baixar um live CD do Xen pra ver se da maneira mais estúpida conseguia instalar alguma coisa nele. Obs.: Xen é um sistema para virtualização de servidores, exatamente a mesma coisa que o VMWare faz, que eu tinha comentado alguns dias atrás. Óbvio que as coisas não funcionaram. O que é o mais normal no mundo da tecnologia.

Chegou 8:20pm a Aline me liga: “terminei a prova.” Detalhe: ela tinha dito que ia até umas 9:30pm, e eu estava bem sossegado tentando fazer as coisas funcionarem. Como eu tinha prometido buscar ela na La Salle, procurei então achar o rumo do carro, que eu deixo fora do estacionamento da empresa. Foi isso que me fez começar a pensar no que escrever aqui. Tente entrar no clima:

Saio pela porta da frente (existe uma porta lateral na empresa, mas de noite eu sempre saio pela frente), fui no portão e achei que o guarda fosse me ver. Como não tinha me visto, fui na salinha avisar que eu estava indo embora. Dei tchau, ele acionou o portão e eu saí. Tinha acabado de chover muito, mas muito mesmo, estava ventando um pouco, e o carro estava num lugar muito escuro. A empresa é cercada por mato. Na frente é a RS239 e aos lados apenas árvore, árvore e árvore, que nem o cachorro do Dr. Dolittle (acho que é assim que se escreve) fica repetindo.
Chegando perto do carro, comecei a sentir medo. O mais estranho é que eu não sinto medo tipo “alguém vai me assaltar”, “me seqüestrar” ou algo do gênero. Eu tenho medo é do desconhecido, do oculto, de aparecer algo na minha frente, ou nas minhas costas, algo inexplicável. O interessante é que, quando eu estou num ambiente seguro, eu desejo ter esses contatos. Mas quando as minhas defesas estão abertas, eu tenho medo que isso aconteça. Sei que nunca estamos a sós, sei que sempre tem um anjo no nosso ombro dizendo o que fazer de certo e de errado, até acho que sei qual(is) anjo(s) me protege(m), mas é aquela coisa: vou saber disso só depois que eu morrer.

Antes de entrar no carro eu fiquei olhando em volta, aquele monte de espaço vazio. Poderia muito bem sair dali um cachorro e me morder, ou algum outro bicho qualquer, mas isso iria cicatrizar depois. As feridas que a alma recebem não cicatrizam da mesma maneira. E eu acho que um contato num momento desses seria algo marcante pra sempre. Quando eu era relativamente pequeno, devia ter uns 10 anos de idade, eu vi um ponto vermelho se mexendo no céu. Fiquei observando ele alguns minutos, até que sumiu. O que era? Será que alguém algum dia vai saber? Qual o motivo das pessoas acharem que só existe vida na Terra? E se existir alguma outra civilização muito mais avançada em algum outro sistema solar? E se nós, reles humanos mortais, formos apenas ratinhos num laboratório chamado Planeta Terra? Qual o motivo de nós sermos a única espécie que evoluiu de tal maneira, sendo que muitas outras espécies existem ha muito mais tempo?
Entrei no carro, olhei pelo espelho retrovisor o vazio da escuridão. Virei o pescoço pra olhar pessoalmente pra trás, a procura de algo que não estava lá (ao menos visivelmente). Meu cérebro tem esse bug, ele procura coisas mesmo quando não quer. É legal! Porque eu consigo vencer o medo. Liguei o carro, subi a lomba mais um pouco pra fazer o retorno, fiquei com os faróis virados pras árvores, e nada de alguém aparecer. Então desisti e fui embora. Fazia tempo que eu não ficava tão vulnerável a qualquer tipo de força oculta. E foi muito bom! Sentir medo é bom, faz o coração bater mais forte, a respiração ficar mais profunda, o que faz com que a gente sinta que o nosso corpo ainda funciona.

Loucura não?
E quem disse que eu sou certo da cabeça?

PS: Achtung Baby: Um dos melhores discos que eu tenho. Tem uma das melhores músicas que eu já ouvi na minha vida, Who’s Gonna Ride Your Wild Horses. Espero que, se algum dia eu for num show do U2, eles toquem essa música.

PS2: Estou pensando sériamente em deixar o cabelo crescer.



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